O espaço entre duas cordas

A viola caipira tornou-se símbolo de uma força musical do interior brasileiro. Algumas bandas do tempo atual utilizam tal instrumento misturado com guitarras ou música eletrônica para legitimar sua “nacionalidade contemporânea”. “Revolução e folclore por um mundo melhor!” (ou pelo menos uma entrada no mercado do eixo Rio - São Paulo e quem sabe um dia, no mercado exterior). Música brasileira para gringo ou descolados escutarem.
Porém, a viola caipira que inspira tais músicos é uma viola mítica, pasteurizada pela MPB. Almir Sater, Renato Andrade, são alguns responsáveis por este processo, em que o canto intolerável das duplas “sertanejo-raiz” foi substituído por um timbre doce.
Os ídolos da viola são apenas o bagaço desta garapa. Tornaram-se: ou trilha sonora nostálgica de churrascaria para relembrar os tempos de criança vividos na fazenda, em que a música mais pop e sem-vergonha pode se tornar o troféu de uma infância feliz; ou heróis míticos (como o Sertão do Nordeste) que prenunciavam uma verdade profunda ainda não revelada (talvez saibam onde mora Dom Sebastião).
Moda de viola contemplativa da vida rural compõe a maior parte da música caipira. Uma música status quo com o aval senso comum da MPB. O diabo deveria continuar a fazer pactos com quem quisesse aprender a tocar viola. Com certeza, Helena Meirelles deve ter trocado uma idéia com este ilustre senhor quando decidiu animar festas de bordel. Nestas festas, as cordas duplas da viola devem ter alcançado os harmônicos mais sinceros e provocativos que já produziram.



