Música Falada

Não pretendemos através de nossos textos praticar o conhecido lambe-lambe presente na atual crítica musical. Queremos fugir o quanto for possível dessa postura, que esconde atrás de si um sistema altamente consumista; desespero em achar semanalmente um novo midas da música. Escrevemos sobre aquilo que nos toca.

quinta-feira, maio 04, 2006

O espaço entre duas cordas


A viola caipira tornou-se símbolo de uma força musical do interior brasileiro. Algumas bandas do tempo atual utilizam tal instrumento misturado com guitarras ou música eletrônica para legitimar sua “nacionalidade contemporânea”. “Revolução e folclore por um mundo melhor!” (ou pelo menos uma entrada no mercado do eixo Rio - São Paulo e quem sabe um dia, no mercado exterior). Música brasileira para gringo ou descolados escutarem.

Porém, a viola caipira que inspira tais músicos é uma viola mítica, pasteurizada pela MPB. Almir Sater, Renato Andrade, são alguns responsáveis por este processo, em que o canto intolerável das duplas “sertanejo-raiz” foi substituído por um timbre doce.

Os ídolos da viola são apenas o bagaço desta garapa. Tornaram-se: ou trilha sonora nostálgica de churrascaria para relembrar os tempos de criança vividos na fazenda, em que a música mais pop e sem-vergonha pode se tornar o troféu de uma infância feliz; ou heróis míticos (como o Sertão do Nordeste) que prenunciavam uma verdade profunda ainda não revelada (talvez saibam onde mora Dom Sebastião).

Moda de viola contemplativa da vida rural compõe a maior parte da música caipira. Uma música status quo com o aval senso comum da MPB. O diabo deveria continuar a fazer pactos com quem quisesse aprender a tocar viola. Com certeza, Helena Meirelles deve ter trocado uma idéia com este ilustre senhor quando decidiu animar festas de bordel. Nestas festas, as cordas duplas da viola devem ter alcançado os harmônicos mais sinceros e provocativos que já produziram.

domingo, abril 02, 2006

Questões Para Não Se Responder

Algumas questões e formas de se falar sobre música, mais batidas, mais batidas mais batidas (amassou, ficou torto, mas o objeto ainda é o mesmo) que discutir se Deus é mesmo rei, perduram.

- E até onde vai seu som?

- ...........................................................

Ao infinito da subjetividade.

Deixo então sugestões interrogativas não para uma discussão, mas para uma pesquisa, que pode tornar o assunto um pouco mais prolífico:

- E de onde vem seu som?

- Quais as necessidades que envolvem essas músicas que você escuta?

- E as necessidades de quem as fez? Quais serão?

- Quais os interesses de quem toca seu som?

- Como eles tocam essas músicas?

- Onde eles tocam essas músicas?

Pronto, não quero suas respostas pra essas perguntas. Essas são apenas sugestões pra acabar com uma discussão e fazer surgir uma conversa.

domingo, março 19, 2006

PITty FIGHTER


Quantos garotos e quantas garotas não querem viver como a Pitty ou como o CPM 22, no auge de sua rebeldia prevista pelos livros de auto-ajuda para educação de filhos? Não podemos esquecer dos jovens mais arrojados que querem ser o Bob Dylan.

Talvez o primeiro grupo seja mais lúcido: querer viver tocando suas músicas no estrelato é menos neurótico do que querer ser alguém inimitável.

Ser Pitty é mais fácil porque em sua singularidade, ela é desprezível. Ela é apenas a atual forma do padrão Rock´n Roll. Fácil no sentido estético, já que no nível econômico, há várias bandas modelo padrão querendo alcançar o sucesso. “Parabéns à Pitty pelo espírito de luta!”

Nesse sentido, querer imitar Bob Dylan é inconcebível: ele é singularidade pura, constrói seu caminho ao caminhar, não pega a Highway cheia de pedágios, escutando Born to Be Wild, em que o CPM 22 excursiona pelo país.

terça-feira, fevereiro 21, 2006

Cogumelos, livre-arbítrio e Damo Suzuki

TEXTO 1

Tudo que busca a vida cresce, se enche e se lança. Toda a natureza, orgânica e mineral, se potencializa, se enche de energia pra se projetar.
O cogumelo nasce frágil, branco e liso. Mas cresce, e aos poucos se protege com sua aparência ameaçadora, esquisita, impossível. Pontudo, cheio de ranhuras e detalhes. Se expande e se arma, como que enchendo os pulmões. A noite cai e na manhã seguinte está outro. Seco, negro, um gigante tombado, caído, jogado. Sua cabeça deslumbrante se torna uma rebarba magra, definhando.
Mas antes disso, antes dessa aparente derrota, toda uma lição. Uma arquitetura alienígena de lançamento, que deixa pretensiosamente para o próximo dia os esporos, de onde surgirão novos cogumelos. Esse movimento, de potencialização, de lançamento e de aparente morte faz parte de uma inteligência cósmica. Muito mais profunda que a inteligência consciente. Efemeridade explosiva, é o ataque dos átomos para a eternidade.
Assim vive e se prolonga também a arte, um lançamento de freqüências para o além, para o cosmos, onde curiosamente vive a humanidade.


TEXTO 2

Música independente. Livre arbítrio!?!

Músicas carregadas de clichês, letras carregadas de neuroses, de fraquezas, de vontade de morte, de reacionarismo, de fascismo, de negação, de humanismos, enfim, carregadas de tudo o que compõe a humanidade-câncer do mundo. O homem-musical-rendido: um animal faminto e enfeitiçado pelo cheiro de carniça. Abre a boca para cantar, mas assopra ácido clorídrico e pus.

Para estes replicantes da hegemonia, disfarçados em cores e formas, alternativo é apenas uma maneira alternativa de prolongar o câncer que a humanidade se especializou em ser.


TEXTO 3

Enquanto isso, longe daqui, Damo Suzuki andarilha pelo mundo.

domingo, janeiro 29, 2006

Trama Virtual?


Quem pretende escutar uma música diferente no Brasil, invariavelmente utiliza o site www.tramavirtual.com.br para conhecer novas bandas ou para conhecer os “grandes” do cenário alternativo brasileiro. Escondidas entre narcisismos e sonhadores do sonho alheio, estão as bandas admiráveis. Neste limbo estético-comercial, os desejos da equipe do site-gravadora e de seus clientes estão ocultos. O que é que se pretende fazendo um site deste tipo? O que desejam as bandas que ali hospedam suas músicas? Se não querem o estrelato do grande mercado brasileiro, talvez queiram construir um mercado alternativo, indiferente ao outro.

Porém, quais seriam as premissas para instaurar este mundo paralelo? Quais bandas seriam consideradas alternativas? E a questão principal: Qual seria o modelo a ser seguido? O modelo americano que sustenta várias bandas e o modelo europeu que possibilita as bandas atingirem vários locais diferentes. Estruturas bem instauradas que nada têm a ver com a camaradagem onipresente no modelo brasileiro. Com os ouvidos e principalmente com os olhos, voltados para o exterior, tanto em sua cultura como em seu olhar sobre a nossa, sobre-vivemos o sonho estrangeiro. Queremos tocando em Piracicaba, o público e toda a glória que o Radiohead obtém em Glastonburry. Piracicaba nunca será Glastonburry e é uma perda de boa vontade e esforço, querer transformar o Brasil uma continuação do circuito alternativo americano.

Para além do âmbito comercial, no que toca a estética, está o grande deserto de nossa música independente. Não é colocando, por cima de um tema de Cartola, guitarra distorcida que surgirá o rock brasileiro. É melhor esquecer o olhar estrangeiro sobre nós. O que aqui se defende é uma música que violente os nossos ouvidos, não somente por sua potência sonora, mas por sua potência estética. Uma música que a cada audição possa revelar suas várias facetas. É um infortúnio ter dizer que música alternativa é uma diluição grotesca de tradições musicais consolidadas. É preciso criar uma música e uma infra-estrutura para ela, que se baseie no que nos é possível, ao invés de ficarmos idealizando um sonho que não é nosso.

E onde está a trama virtual, que pelo nome deveria espalhar músicas com qualidades para além do material? Quase sempre está ocupada em dar prêmios de consolação a quem insistentemente e cegamente, quer, mesmo com músicas péssimas, ser adorado como o novo Iggy Pop num país, cuja capital pode ser tanto o Rio de Janeiro quanto Bueno Aires.